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30

Outubro

Nomenclaturas

O Brasil é um país das máscaras. Isso já foi dito e “redito”. É um imenso “balmasqué” porque conseguimos iludir nosso povo mascarando realidades de formas tão grotescas que fazem inveja a qualquer fantasia de monstro para que os líderes, poderosos e adjacentes vistam a fantasia de anjo. Uma dessas performances está na linguagem que somos obrigados a usar sem lógica nenhuma.
Claro que as palavras têm um forte apelo social, depreciativo, afetivo, cultural. Mas muito disso é extrema fantasia para disfarçar ou criar mais discriminações e confusões para um povo suscetível aos modismos sejam eles de que cunhos forem. Temos o exemplo da famosa “cartilha” que trazia termos politicamente corretos para substituírem os incorretos. Na tal cartilha, não podíamos chamar ninguém de “negro” e sim de “afro-descendente”. É o quê, homem?!!! Que diabo de palhaçada era essa? Por que não pode chamar um negro de negro? Onde está a ofensa? Se for ofensa, então chamemos os brancos de “germano-descendente” ou “luso-descendente”. E a mistura? E ainda há o caso dos baixinhos que não poderiam ser chamados de “anões” e sim de “verticalmente desfavorecidos”. Já pensou?!! Como seriam os altos, os galalaus? “Verticalmente favorecidos”. Isso é um insulto! Podemos chamar um amigo de doido e não podemos chamar um doido de doido. Desde quando tais palavras oprimem, prejudicam? Só se forem em demasia, com o intuito de denegrir, desonrar, depreciar.
A educação também não fica atrás. Talvez seja o setor que mais usa máscaras. O colegial já foi secundário, científico, segundo grau e agora é ensino médio. Exame já foi teste, prova, avaliação e agora é atividade geradora de nota. Cada parte de nosso ensino já foi série, níveis, ciclos, promoções, anos, séries de novo, anos novamente. Mas a desgraça continua a mesma. Os elásticos das máscaras enfraquecem e elas acabam caindo, revelando a pintura borrada da cara de cavalo de nosso sistema educacional. Ah povo vagabundo que, sem ter o que fazer, tem que justificar o absurdo que ganha inventando tais nomenclaturas. Ops! Desculpem-me! Não são vagabundos! São funcionários ociosos que, com a ausência de funções, dispõem-se à criação de modalidades para que compensem o grande montante que recebem injustamente.
Um assassino que já “cumpriu” sua pena e foi “restabelecido” na sociedade não pode ser chamado de assassino. É como se os crimes dele não existissem, foram pura fantasia ou um pesadelo que os familiares das vítimas tiveram e, com o cumprimento da pena do acusado, acordaram felizes por ter sido apenas um mau sonho. Já imaginou?!!
É indiscutível que, em nossa pátria, quanto maior a amizade maior a ofensa. O nosso grande amigo é “doido”, “otário”, nojento”, “safado”. E tais intimidades podem aumentar dependendo do grau de amizade. Mas também não vamos exagerar do outro lado, dando muita importância a pequenos eventos lingüísticos. Há coisas bem mais importantes a fazer que acabariam resolvendo, por tabela, tais problemas. Se é que são problemas. Que tal uma educação melhor?!! Mas isso já virou ditado popular. Aquela linguagem que realmente prejudicar deve ser punida e corrigida. Mas tenhamos calma com as providências tomadas ou com nomenclaturas em setores e aspectos que não precisam disso.
Não podemos negar que o palavrão é vulgar, falta de respeito, medíocre, falta de moral, mal educado, ralé ou coisa mais baixa, quando é palavrão, quando oprime e degrada. E deve ser combatido, punido e substituído. Mas muitas palavras que são tidas como ofensas vêm da discriminação ou não-aceitação de quem colocou a ofensa nelas. Vamos evoluir e separar o joio do trigo.
Antigamente, a palavra “câncer” era um deus-nos-acuda. Só era pronunciada para designar o signo do zodíaco. E era chamada de “aquela doença” e nunca na frente das crianças. Será que a simples menção da palavra fazia pegar a doença? Aí, criaram o brega “c.a.” e depois veio o “tumor maligno”. Tudo isso sendo nada mais nada menos que câncer. Que confusão! Que alarido! Que frescura! Talvez o bom disso é que, um dia, muita gente vai se frustrar, pois não se vai poder chamar ninguém de “filho de uma . . .” e sim de “primogênito de uma mulher de vida fácil”. É como dizia o genial Machado de Assis: Vão-se os adjetivos, ficam os substantivos.”

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31

Outubro

Perigoso elogio

Elogiar é uma das mais antigas artes de estimular e de bajular e, por isso, para quem entende e para quem acha que entendeu, o risco está tanto na intenção quanto na compreensão, pois, se não compreendermos, muitas vezes, o camarada nos dá uma esculhambação e a gente se sente a oitava maravilha do mundo.
Certa vez, um ex-aluno meu disse-me que eu era uma “lenda”. Percebi a intenção gratificante que ele teve em reconhecer meu trabalho e dedicação ao que faço. Porém fui pensar no elogio e, se eu tivesse tanto complexo de inferioridade, poderia tê-lo encarado como um insulto. Ora, lenda é algo antiqüíssimo, mentiroso e ultrapassado. E aí? Mas sei, graças a Deus, que não foi esse o sentido que ele quis dar ao elogio.
Por outro lado, tenhamos cuidado com afirmações como “Você é altamente!”, ou ainda com “Você é tudo!”. Você é altamente o quê? Safado? Canalha? Inteligente? Gente boa? Já o “tudo” engloba o que presta e o que não presta. O que nos resta é confiar na intenção. Ela será nossa salvadora, pois poderemos cometer injustiças.
Os elogios modernos, dos jovens, são, no mínimo, esquisitos. Uns dizem “Você é o cara!”. Quem será esse cara a quem eles quiseram nos comparar? É melhor agradecer e não pensar nisso. Outros vão mais longe com “Você é sinistro!”. Na minha época, sinistro era algo que dava medo, tenebroso, hoje é um elogio. Há aqueles que chegam e gritam “Você é um puta professor!” . . . É, é, é um elogio! Obrigado! Estou orgulhoso! Fazer o quê, né? E olhe que há os piores que jogam algo mais profundo: “Você é o bicho!”, “Você é o cão mesmo!”, “Você é um professor do c. . .!” ou ainda “Você é f . . .!” Dizer o quê? Simplesmente, obrigado! Valeu a intenção.
Não se pode esquecer que há o inverso: palavras bonitas que significam uma agressão. Certa vez, um amigo meu sentiu-se muita coisa porque alguém o havia chamado de “néscio”. Fiquei no grande dilema de deixá-lo deliciando-se com aquele prazer orgulhoso do pseudo-elogio ou de explicar que “néscio” quer dizer “estúpido”, “ignorante”, “incapaz” e jogá-lo numa grande decepção por não esperar isso da outra pessoa ou de encarar que estava sendo mesmo um “néscio” por não conhecer o sentido da palavra e ter se regozijado. Por outro lado, cheguei a ver uma quase separação de marido e mulher quando a esposa chamou o marido de “pústula” pensando que estava fazendo um grande elogio. Quando ele, dias depois, soube que o sentido da palavra era uma ofensa – sujeito infame, de péssimo caráter – quase a matava de uma surra. Ele era realmente o que ela não teve a intenção de dizer.
Existe também o elogio falso, que tem o objetivo de fazer você acreditar numa mentira. Não são poucas as vezes em que alguém com pena ou que precisa de algo seu tenta consegui-lo com falsas e belas características. E aí você fica tão grato que cede e concede. Talvez isso explique o fato de tantas pessoas feias se acharem bonitas, de tantos maus artistas quererem ser famosos, de tantas pessoas medíocres acharem-se os buracos das bolachas de água e sal.
Assim, o que é mais lucrativo para nós é termos consciência do que somos, do que podemos e de como fazemos. Termos modéstia aqui e ali é muito bom, mas a falsa modéstia é ridícula. E, quando formos elogiar, sejamos honestos, caso contrário poderemos formar alguns monstros; mas não sejamos realistas demais, pois poderemos ser culpados por alguns suicídios.

Obs: Ofereço este escrito ao meu ex-aluno, que me chamou de “lenda”, e a D. Nenen, do Antônio Aladim, por ter me feito um dos maiores elogios que já recebi nos últimos tempos. Ela me disse: Você é um formador de opiniões. Isso foi tudo . . . de bom, é claro. Obrigado.

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01

Dezembro

Artigo do Prof. Felix - Vale conferir: Alívios assassinos

As mulheres casadas e donas-de-casa sofrem muito com tais “alívios”. As coitadas primeiro comem o pão que o diabo amassou no dia-a-dia e tentam se conformar com o rótulo de “A RAINHA DO LAR”. E haja prato e roupa suja para lavar todo dia; haja casa para varrer todo dia; haja comida para fazer todo dia; haja móveis para espanar todo dia; haja abuso para agüentar todo dia . . .

Leia o artigo completo no link ao lado destacado pela foto do professor Felix.
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10

Janeiro

Dignidade dos mortos

O Brasil precisaria dar uma basta na morosidade acintosa de todas as suas justiças para que os milhões de processos fossem julgados e autoridades chegassem a julgamento. A exceção nesse marasmo lesa-pátria seria a Justiça Eleitoral, apenas nos casos que envolvem o processo de preparação das eleições, já que nos demais, a lentidão infinita também predomina.

O deslizamento em Angra dos Reis soterrando mais de cinquenta pessoas; São Luiz do Paraitinga, com todo seu patrimônio histórico destruído; e a ponte levada como uma folha de papel no Rio Grande do Sul são exemplos extremos de descaso absoluto e secular das autoridades deste país quanto à prevenção dessas catástrofes.

Logo após as tragédias aparecem os noticiários com posição abertamente inclinada a demonstrar que são casos inevitáveis, com responsabilidade restrita à Natureza, posição que se tornou clichê generalizado.

Angra dos Reis foi simbólica pela repetição de tragédia. Parecia a mesma de oito anos atrás. E, também, pela desfaçatez do governador ao anunciar a nova frase de que todas as medidas necessárias serão tomadas, só que todas elas após a morte de dezenas de pessoas e o sofrimento de centenas de amigos e parentes.

Agora, somente agora, casas estão sendo demolidas, famílias retiradas e novas casas sendo construídas para abrigá-las. Os milhões de reais são liberados de todos os lados. De novo nada é indagado por que nenhum centavo fora liberado para ações preventivas. Uma palha não foi movida antes.

Como sempre, a culpa é dos moradores que constroem casas nas encostas e em locais de risco. Não explicam e nenhum repórter ou jornalista pergunta sobre quem e os elementos pelos quais uma área é definida como de risco. Caso essa definição fosse anterior às construções, não poderia o Poder Público permitir as edificações, sob quaisquer argumentos dos moradores, pois aí vem a figura da prevalência do interesse público sobre o individual. Caso seja posterior, a demolição agora explica, por si, o que deveria ter sido feito. Apenas deveria ser antes das mortes de dezenas de pessoas ou apenas de uma pessoa. Há seis meses o governador assinou um decreto autorizando construções onde agora estão demolindo casas.

Argumentar que é difícil serve para particulares, não cabe ao gestor público, pois seu poder é ilimitado para fazer o que deve ser feito. O que deve ser feito! Aí entra a Justiça, incluindo a iniciativa do Ministério Público. Se alguém deveria ter feito e não fez, e pessoas morreram em face dessa omissão, quem é responsável por essas mortes? Como ninguém nunca foi punido, apesar da repetição dessas cenas desde que existe televisão, chega-se à conclusão de que o único responsável é Deus ou a Natureza, conforme a crença de cada um.

À medida que corpos eram retirados dos escombros, o festival de fanfarrice aparecia. Desta vez, o coroamento veio com o consolo do governador Sérgio Cabral afirmando para os parentes das vítimas que ficassem tranqüilos, pois a “dignidade dos mortos seria assegurada”. Seria sandice de nossa parte afirmar que a dignidade dos vivos deveria vir em primeiro lugar, pois assim, essas mortes teriam sido evitadas. E avisar ao governador que se, ao menos, a dignidade dos mortos não for respeitada, estaria se cometendo crime de vilipêndio. E isso só pode passar pela cabeça de um deliquente, jamais de uma autoridade. A sociedade brasileira precisa sair dessa letargia tupiniquim de aceitar qualquer argumento de autoridade, por mais descabido que seja. A dignidade assegurada aos corpos por Sérgio Cabral configura-se num acinte ao extremo.

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP - Bel. Direito
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